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sazonal

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Aula de Geografia, atividade extra no caderno e eis que vem a pergunta:

– professora, o que é ‘sazonal’?

Eu, com aquela paciência que Deus deu extra aos professores (porque eles estão no nono ano e já viram essa palavra duas centenas de vezes):

– tem a ver com a época do ano, acontece sempre em determinada estação do ano. Aliás, vocês já coloquem  o significado dessa palavra ai do lado para aprenderem, porque na próxima prova eu não vou ficar ‘traduzindo’ as palavras que vocês não conhecem, como eu fiz na prova passada. São palavras que vocês tem de saber (porque gente, eu não tô falando de palavras como ‘idiossincrasia’, tô falando de ‘intenso’: “- professora, inverno intenso é que foi muito frio né?”).

– Mas professora, você devia escrever com as palavras que A GENTE sabe, não as suas (as minhas, sou dona de palavras agora…).

– Não senhora. Vocês vem pra escola para aumentar o vocabulário de vocês, não para ficarem com esse vocabulário restrito!

– Aí, tá vendo, ‘restrito’!

ráxitégui vida de professora

Lembrei disso porque fiquei sabendo que ‘traduziram’ um livro do Machado de Assis para que os jovens possam ler. Olha minha gente, eu não acho que Machado seja fácil, acho até que não seria nada demais colocar umas notinhas de rodapé com o significado de algumas palavras (que na minha época a gente tinha um método muito complexo pra resolver esse problema, chamado procurar-no-dicionário) mas daí a MODIFICAR O TEXTO! Um blogueiro fez uma comparação brilhante:

“Eu também entendo o porquê da minha irmãzinha não gostar muito do quadro O Nascimento de Vênus, de Botticelli, mas nem por isso eu tenho o direito de colocar a boneca Barbie em cima da concha, no lugar da deusa Vênus, né?”

Vamos dar conhecimento para que eles consigam ler Machado de Assis? Nop, vamos modificar as palavras difíceis. Logo nas livrarias: prateleiras dividindo as obras por níveis, como um video-game:

– O senhor quer Jorge Amado no nível hard? Porque temos aqui um easy que acabou de sair, ilustrado, com apenas 4 tempos verbais e 20 páginas!

 

Das opiniões

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Acompanho alguns blogs. Mais do que deveria. Menos do que gostaria. Também leio diariamente alguns portais de notícias e sempre me pego lendo os comentários – aquela mania de olhar para alguma coisa sabendo que vai se arrepender, mas a curiosidade é maior. Essa, aliás, deveria ser uma resolução para toda vida: não olhar comentários de portais. É assustador, mais ou menos o que o Sakamoto escreveu aqui. Eu também estou com medo.

Não é exatamente sobre o que quero tratar, mas de certa forma se relaciona com o assunto: por que todos tem de ter opinião sobre tudo? Eu vejo por exemplo que as discussões em redes sociais não visam “discutir civilizadamente um tópico em comum, apresentar seu argumento e tentar chegar a um consenso”. O raciocínio para em “apresentar seu argumento”. Na maioria das vezes não existe nenhum intuito em discutir no sentido de conversar, debater e conhecer a visão do outro. Discussões de facebook não levam à lugar nenhum porque todo mundo tem uma opinião formada sobre tudo (beijo Raul). E, se a gente parar pra pensar, eu posso ser muito lerda ou burra mas, isso é impossível! Não dá pra ter opinião sobre tudo, certamente tem algo sobre o qual você não sabe falar. Por exemplo: maneiras de melhorar a situação dos viciados que vivem na cracolândia. Nem vou linkar o tanto de página tratando disso: de um lado o prefeito querendo ressocializar, do outro a PM descendo bala de borracha. Não concordo com a violência policial, mas não sei se a ideia de arrumar trabalho e hotel pra galera não é apenas uma maneira de “limpar” a cidade. Cara, não sei! Não sei se isso resolve, a violência eu tenho certeza que não mas, e a internação compulsória? O viciado tem autonomia, enquanto viciado, de parar quando quiser? Não sei! E eu li muito sobre isso. Mas sabe de uma coisa: eu NÃO PRECISO saber. Eu posso acompanhar as discussões, concordar e discordar, mas eu não preciso me expressar sobre isso, ofender quem tem uma opinião diferente. Pelo contrário, posso aprender com eles e melhorar os meus argumentos conhecendo a visão deles. Isso é muito mais bonito do que ficar vomitando asneiras por ai.

Eu tive algumas experiências bacanas dando aula para um nono ano de escola particular (apenas 12 alunos) em que eu precisava dar uma aula por semana de sociologia e filosofia. Não sou formada nessas áreas, os livros didáticos dessas disciplinas são para o Ensino Médio e eu aproveitei para sentar e conversar com eles sobre assuntos que estavam em discussão na mídia, trabalhando produção de texto. Um dos primeiros temas foi exatamente a internação compulsória dos viciados da cracolândia e foram discussões muito legais, em que no final eles deveriam escrever uma carta para alguém, em nome deles mesmos ou um outro personagem. Foi muito bonito – uma aluna escreveu para o governador do estado enquanto mãe de um viciado, por exemplo. Em outras aulas, aproveitei a discussão sobre cotas e minorias da apostila de História para trabalhar esse assunto. Como alunos de escola particular, muitos deles eram contra, pois era uma “discriminação às avessas”, “anti-democrático” e tudo o que a gente lê/ouve por ai. Apresentando os argumentos da apostila e os meus (eu sou a favor – e a apostila também – , mas não me posicionei em nenhum momento) uma das alunas levantou a mão e disse “professora, antes eu era contra as cotas mas agora eu não sei mais minha opinião”. Meu Deus, era a melhor coisa que eu podia ouvir! Se ela dissesse que passava a ser a favor, eu ficaria incomodada não só por ela ter mudado de opinião em 15 minutos, mas porque eu provavelmente a teria influenciado de alguma maneira. Dizer que não sabia mais qual era a própria opinião significava a abertura do pensar diferente, as convicções abaladas e talvez a busca por outras ideias… Isso é sensacional e acho que foi uma das vezes em que fiquei feliz com o resultado de uma aula (quem é professor sabe que essas oportunidades não são muitas). 

A dica da tia Carol é pra vida toda: você não precisa ter opinião sobre tudo. E mesmo que você tenha, ela não precisa ser vomitada por ai. Tem gente que entra no site dos outros pra dizer que odiou o texto. GENTE! Não gostou, não leia. Tem um botãozinho ali no canto direito superior com um X (no Mac é do outro lado, mas deu pra entender). Fecha a página e vai ser feliz. Ofender as pessoas ou deixá-las constrangidas, magoadas, envergonhadas não faz parte da sua liberdade de expressão, só demonstra o quanto você é babaca.

Novo blog

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Como aparentemente eu não estou começando um doutorado E dando aula, resolvi montar um novo blog para escrever apenas sobre livros e filmes. O Letrificando está a todo vapor, obviamente porque é janeiro e ao invés de estar modificando o projeto da USP estou aqui linda lendo e assistindo filmes loucamente. Vai lá que esse ritmo vai acabar e os textos tão bonitos 🙂

Moça lendo no jardim, 2009 Barbara Jaskiewicz ( Polônia, contemporânea) Óleo sobre tela, 55x 73 cm

A imagem é daqui

Da superexposição dos dias de hoje

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Convivo com adolescentes. Sei e entendo a necessidade deles de postarem fotos diárias, com roupas de marca (pros meninos) ou sexy (pras meninas). Entender não é concordar, mas eu tenho 27 anos. Na idade deles, eu estava descobrindo o que era um computador. Não havia celular e só víamos a foto depois de revelar na Kodak. Não tinha como sair por ai tirando 200 fotos por dia, era caro revelar um filme. Brinco com meus alunos que eles já nasceram com um perfil no facebook.

se você não sabe o medo das fotos

Mas antes fossem apenas os adolescentes os fissurados pela exposição online, pela necessidade de mostrar para os amigos e familiares o que estão fazendo a todo o minuto. A epidemia do “me veja” está em todos os lugares, atinge todas as classes sociais e todas as idades. Por dia, 350 milhões de fotos são compartilhadas no facebook. São 4 mil fotos por segundo… Muitas delas são as selfies, palavra que entrou para o dicionário e pode ser entendida como aquela foto em frente ao espelho da balada, ou a que você mesmo tira virando o visor da câmera do celular para o próprio rosto. Se até o Obama faz, minha gente…

Qual o problema disso? Eu não vou entrar em questões como a segurança (porque se a ideia é se mostrar, é claro que as fotos vem com a localização, não é?), acho muito estranho mesmo é essa necessidade de se expor. Baladas, almoços, gatinhos, piscinas (um americano resolveu tirar sarro das famosas fotos de pernas na piscina, eu adorei!), tudo tem de ser mostrado para sua lista de 2000 amigos (dos quais você conhece 20% e conversa com 5%). Será que dá pra curtir sem um câmera fotográfica ou um celular com internet? Será que o tempo que você perde tentando achar o melhor ângulo, colocar o melhor filtro, não seria melhor aproveitado CURTINDO realmente aquele momento? Veja duas fotos tiradas no Vaticano, uma em 2005 da morte de João Paulo II e outra de 2013, da eleição do papa Chico (e leia o texto sobre a democratização do acesso – e divulgação! – de notícias). É isso. Lembra aquele último show que você foi, em que mais da metade da plateia assistiu pelos visores dos celulares? O Alex Castro já escreveu sobre isso também “o importante não é ir à França, absorver a cultura, conhecer os habitantes, mas provar aos amigos de casa que você esteve de fato na torre Eiffel”. E não basta tirar a foto e mostrar para os amigos íntimos: é preciso compartilhar no facebook, no instagram etc. Até prova do ENEM a galera não consegue fazer sem publicar foto no facebook…

O texto não é pra dizer que essas atitudes são certas ou erradas, sou professora de História e ainda monto álbuns de fotos (reais!) para guardar na estante porque gosto mais – e isso é só um acúmulo de papel e tralha (nesse ponto os álbuns no facebook são mais ecologicamente corretos do que os meus). A ideia é só pensar sobre essa necessidade de mostrar para as pessoas não só todos os seus passos, mas todos esses momentos felizes (que ninguém compartilha tristeza), filtrados e ensolarados: por que compartilhar tudo isso?

PS: Tem uma exposição que nunca termina bem pra uma das partes, a pornografia de revanche. Leia mais aqui

Cem anos de solidão

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Um livro amarelado, edição de não sei quando, que traz consigo mais do que a linda história de Gabriel García Marquez. Comprado no Campo Pequeno, em Lisboa, em uma feira de rua por 5 euros. Lembro do velhinho que o vendia, falando do romance, “educadíssimo” – diria dona Ana, a portuguesa que alugava meu quarto. Eu trouxe 30 livros de Lisboa. Esse daqui é o do coração.

“Era tão premente a paixão restaurada que em mais de uma ocasião eles se olharam nos olhos quando se dispunham a comer e, sem dizerem nada, taparam os pratos e foram morrer de fome e de amor no quarto”.

Ser mulher no século XIX

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“Aos 4 anos, Isabel foi reconhecida herdeira da Coroa. Cresceu como a princesa que teria de fortalecer o princípio monárquico apesar de ser mulher. Apesar de… Mas o que era ser mulher então?

Segundo médicos e cientistas, o gênero era governado pela sensibilidade. Escritores como Chateaubriand preferiam defini-lo como ‘o belo defeito da natureza’. Afinal, Adão não saiu de entranhas enfermas, mas das mãos de Deus. Já a inferioridade feminina era um dado natural, sem remédio. Era graças a ela que existiam coisas desprezíveis como a prostituição, o adultério e o infanticídio. Até o banho de sangue da Revolução Francesa lhe era debitado. Só por meio do casamento a mulher encontrava seu papel verdadeiro: o de ser obediente e dotada de sentimentos exemplares como a abnegação. A religião lhe era imprescindível. Sua fé ora funcionava como suporte contra sua fragilidade, ora como aliada de seu pudor e ignorância. Apenas a moral, a vida doméstica e a educação dos filhos  poderiam dar-lhe alguma forma de gratificação. Para a biologia,, que descobrira recentemente a ovulação, ela era o ‘vaso frágil’ no qual o homem depositava sua semente. Controlar seu funcionamento sexual era controlar sua vida. O marido seria o guardião da saúde feminina. Ele a criaria à sua imagem e semelhança”.

(PRIORE, Mary del. O Castelo de Papel. Rio de Janeiro: Rocco, 2013. págs 43-44 – Livro sobre a vida da princesa Isabel e do Conde d’Eu, seu marido)