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Eu aprendo o tempo todo. Todos os dias eu acordo com a certeza de que não sei nada, de que deveria ter lido aquele livro ou aquela matéria, assistido o filme que ganhou o último prêmio, mexido no artigo, preparado melhor aquela aula. Mas a vida segue com essas garantias de incompletude. Namorado tem a plena convicção de que a vida não tem sentido. Eu concordo com ele. Mas eu sempre digo que a gente tem que dar um sentido, mesmo que saibamos que ela não tem sentido nenhum mesmo. Se você acordar um dia com a certeza de que não há sentido, nem aquele que você vinha tentando dar, não sei se vai conseguir levantar…

Objetivos são meios de se dar sentido à vida. Aquela promoção na empresa, aquele concurso, aquela vaga. Eles não necessariamente envolvem dinheiro. Na minha vida muitas vezes não envolvem. Eu sou historiadora e professora. Sei que não terei muito dinheiro, não é isso que me faz levantar toda a manhã. Meu trabalho faz. Eu não ganho muito, mas eu gosto daquelas crianças e adolescentes. Saber que às vezes consigo fazê-las pensar além do que elas vêem na TV e no facebook, e além das apostilas da escola, me deixa genuinamente feliz. Apesar do cansaço, dos ônibus, da burocracia que é ser professora, o conhecimento parece ser o sentido que encontrei para minha vida.

Prova da pós Fflch – História

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Eu não sou lá uma boa pessoa para dar dicas sobre essa prova, afinal, eu não sei se passei ainda. Mas posso dizer como a prova é, pra dar uma ideia pro pessoal que, assim como eu, não conhece ninguém da USP e chega lá meio com a cara e a coragem.

Pra História Social (que é a única que eu sei):

1) Inscrição (apenas os dados, sem apresentação de documentos, sem projeto de pesquisa, R$ 50,00);

2) Prova de línguas: pro mestrado não vale espanhol. Pro doutorado vale. Assim, além da língua que já tiver certificada pelo mestrado, mais uma. Eu fiz francês. É corrida, apenas duas horas então nem tentei fazer a lápis! É uma tradução. Já comecei a caneta – eu vi gente entregando as provas atrasadas, inclusive com metade sem passar a caneta! Ah se eu sou o corretor…

3) Específica: não sei qual é a frequência com que eles mudam os textos. Esse ano foram 9 autores, uns o livro inteiro (Marc Bloch, Certeau, Ginzburg), outros apenas um artigo ou capítulo (Ulpiano, Thompson, Emilia Viotti). São três horas, pergunta básica que dá pra falar muita coisa… Tem de se preparar já relacionando os textos, pensando em como interligar as ideias.

Se não passar na de línguas, não corrige a metodológica ( 😦 ) E as provas valem por dois anos. Se eu passar na de línguas ou nas duas por exemplo, e a orientadora pretendida (que eu já escolhi na inscrição) não tiver vagas – o que é possível – eu não preciso refazer as provas pelos próximos dois anos (iupi!). Em caso de aprovação, tem um tempo pra enviar todos os documentos, inclusive o projeto e, por fim, entrevista com a chefa. Legal que as provas não tem nome ou seja, não rola favorecimento na correção para os alunos de dentro – o que é beem comum, como todo mundo que presta essas provas sabe.

É isso, se ajudar alguém, que ótimo! 😉

Ah, resultado sai no início do mês!

Aquela sensação

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Se você é homem, nunca vai saber qual é essa sensação. Se você é mulher, certamente já passou por ela. Não é o medo de ser assaltada. Não é o medo de ser sequestrada. Não é o medo de ser assassinada. A sensação que tento descrever vem do simples fato de ser mulher. Aquela sensação que chega a me privar de fazer alguma coisa, de ir a algum lugar, de usar certa roupa ou estar sozinha em público em determinado horário.

Duas coisas me fizeram lembrar dessa sensação: o texto incrível da Aline Valek, que expressa maravilhosamente bem esse sentimento, e minha ida à academia, a pé, às oito da noite. O texto da Aline é tão incrível, demonstra tão bem como algumas mulheres se sentem quando recebem assovios, “elogios”, buzinadas e até intimidações nas ruas, que me fez pensar em quantas vezes eu já passei por isso.

A primeira vez que me dei conta de que não podia andar sozinha no centro da cidade às quatro da tarde de um sábado foi um dia em que, de maneira audaciosa, resolvi ir até o ponto de ônibus sozinha, voltando da casa de uma amiga. Quando as mulheres relatam situações de abuso, normalmente descrevem as roupas que estavam usando (vide a ótima comunidade do facebook chamada Cantada de rua: conte o seu caso) e no meu caso, não foi diferente: há exatos dez anos eu lembro exatamente a roupa que estava usando. Penso que isso se dá porque a roupa é normalmente vista como algo que encoraja o agressor, o que me fez passar anos tentando entender o que EU havia feito que tinha provocado aquela atitude (“mas também, com aquela roupa, estava pedindo para ser estuprada!”). Eu usava uma calça jeans rasgada, uma blusinha preta, tênis preto e o cabelo amarrado num rabo-de-cavalo. Eu lembro QUAL era a calça. Eu lembro exatamente qual era a blusa, até da mochila que eu carregava. A rua, que tinha em sua maioria lojas e comércio em geral, estava bastante deserta (porque quase tudo fecha em Campinas após o almoço de sábado) quando um carro começou a me seguir. O motorista começou a me perguntar onde eu ia, se eu queria carona, e quanto eu cobrava. Eu não sabia o que fazer, porque minha mãe já havia me ensinado uma dezena de atitudes para fugir de situações de assalto, como deveria me vestir, por onde andar, mas não como reagir àquela abordagem… Fui pro canto da calçada mais longe do carro, dizia pra ele, bastante assustada, que eu não era prostituta, que eu não ia entrar no carro, que eu não queria carona. Até ele desistir e ir embora. Chegando em casa, contei para minha mãe, chorando, o que havia acontecido. Ela, que recebeu a mesma educação que meus avós, me disse que eu não deveria ter passado por aquela rua, sozinha, naquele horário (quatro da tarde).

Outras dezenas de situações parecidas com essa aconteceram comigo: abordagens escrotas em baladas, como quando eu dizia que não queria nada e o cara insistia que eu deveria sim ficar com ele. Ou quando eu dizia que tinha namorado e, ou não acreditavam ou diziam “como seu namorado DEIXA uma mulher tão linda sair sozinha (sim, era esse verbo mesmo que usavam… DEIXA)?”. Ou quando, indo para o clube, às cinco da tarde, dois garotos atrás de mim achavam engraçado gritar se podiam me comer. Assim mesmo: “ei moça, posso te comer?”. Eles acharam divertidíssimo porque me constrangiam E mostravam sua pseudo masculinidade. Naquela época eu não reagi, porque tive medo, porque realmente fiquei constrangida, porque não soube o que fazer. Hoje eu aprendi que não abaixar a cabeça intimida esses nojentos. O que eles querem não é paquera. Não é elogio. Não é me conhecer. Muitos deles se sentem no DIREITO de falar isso para mim na rua pelo simples fato de serem homens. Alguém, quando eram pequenos, disse a eles que as mulheres estavam à disposição para serem “elogiadas”, e não podiam reagir, porque mulher “de bem” (adooooro esse termo “de bem”) não reage, até gosta imagina, passar em frente a uma mesa de bar e ouvir um “noooossa que gostosa, chupava inteirinha”… Que mulher não vai gostar disso? Que mulher não vai querer ir pra cama com esse cara??

Daí eu chego finalmente na noite de ontem, em que eu ia sair sozinha, com roupa de academia (justa, de malha, que marca as curvas – que eu não tenho, mas enfim…). Eu assumo que cogitei NÃO fazer os exercícios que gosto por medo desse percurso de cinco minutos. Se às cinco da tarde dois garotos pediam para me comer, o que aconteceria a noite? Mas eu fui. E eu assumo também que tive medo, na ida e na volta. Que fiquei me perguntando porque ainda não havia arrumado um spray de pimenta. Só ouvi uma buzinada. Daí pros que falam que uma buzinada não é nada, pensem que eu estava sozinha numa rua escura e deserta. Uma buzinada me deixou sim com medo, com receio de quem poderia estar no carro. Também ouvi um “oooi” bem enfático de um cara na recepção. Até ai, o tratei como ser humano, que eu cumprimentaria por educação. Respondi e não abaixei a cabeça. Saibam também que eu sei distinguir um oi educado de um oi com segundas intenções. Todo mundo sabe. Mas eu respondi como  se não tivesse percebido. Nós mulheres fazemos isso o tempo todo.

Se você é homem e não é escroto, ou até se é escroto, vai sentir medo pelas mulheres que você gosta: filhas, irmãs, esposa. Sentir o que nós mulheres sentimos todos os dias, dentro dos transportes públicos, na rua, no trabalho, isso você nunca vai poder saber. Talvez um homem homossexual chegue perto, porque também corre riscos simplesmente por ser quem ele é. Vou repetir aqui uma das máximas do feminismo: “Ensine os homens a não estuprar, e não as mulheres a não serem estupradas”. Hoje tive que pedir que um aluno de doze anos parasse de cutucar e fazer cócegas em uma colega. Ela implorava para que ele não fizesse, e ele achava divertido ela pedir para ele parar. Até quando as meninas/mulheres estarão a mercê de situações como essa? Já imploramos muito para que ELES parassem. Agora que o feminismo sai do armário nas redes sociais e nas ruas, incomoda. E vai incomodar mesmo. 

Affe

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O blog ficou parado porque, entre conclusão do estágio, viagem dos sonhos para Barcelona (e pesadelo porque fui furtada lá) e preparativos pra volta, além da ansiedade monstra de voltar e ver minha família e meu namorado lindo, não vai dar pra elaborar nada por enquanto. Meus dois leitores, aguardem os próximos capítulos! 🙂

A viagem

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Apesar da ansiedade, da angústia e do pânico em que acordei na segunda-feira, cá estou em terras lusas. Num quartinho pequeno com banheiro (com uma daquelas duchas móveis e um box em que uma pessoa com 15 quilos ou 10 centímetros a mais não caberia) e morando com mais duas brasileiras, tendo ainda uma amiga no mesmo prédio. Já ter alguém aqui que alugou o quarto pra mim foi uma vantagem incrível. Não precisei fazer  reserva em hotel nenhum e vim de táxi, por 10 euros, direto do aeroporto.

Os aviões

Cheguei duas horas antes, conforme o pedido para viagens internacionais, mas meu trajeto era doméstico, tendo em vista o voo até o Rio de Janeiro pela TAM para depois sim, pegar pela TAP até Lisboa. Mas não teve problema, eu estava tão ansiosa que teria amanhecido em Viracopos se isso não fosse muito ridículo. Tudo tranquilo, despedidas, saber que só vejo meu namorado daqui dois meses ( 😦 ), o avião decolou exatamente às 19:00 e antes das 20:00 eu já estava no Rio. Um Rio chuvoso e abafado, onde eu tive certeza que minha mala saiu do avião embaixo de uma tempestade, sem proteção (o que pude confirmar quando cheguei aqui e vi minha toalha molhada). Troquei minha passagem TAM pela TAP, paguei R$ 4,90 num salgado (!!) e fui para o embarque internacional. Lá a fila era enorme, todas as línguas que eu conhecia e não conhecia eram faladas, conferiram meu passaporte e fiquei esperando o horário do voo.

A classe econômica da TAP é muito apertada. MUITO. Cheguei e já havia uma senhorinha portuguesa sentada na poltrona do corredor, com uma sacola de mudas de plantas que trazia para a cidade do Porto nos pés e sua bengala do lado. O aperto mais a senhorinha que não poderia se levantar do meu lado me fizeram pensar: vai ser uma loonga viagem. E foi. Achei o jantar bem ruim, mas gostei da aeromoça, bem simpática. O café da manhã, servido uma hora antes da “aterragem”, foi muito melhor do que o jantar.

A recepção em Lisboa 

E o que era a fila dos passaportes no aeroporto de Lisboa? Muito maior do que do Galeão. E eu lá, com minha pastinha de documentos (carta de moradia, carta da FAPESP, valores do Visa Travel) e o funcionário, vendo meu passaporte, perguntou onde eu ia e o que eu ia fazer. PRONTO. Carimbo no passaporte e eu estava liberada. Assim, sem nem mostrar tuudo o que eu tinha trazido pra provar que eu só queria estudar.

É a vida. To em Lisboa. E sabe a primavera que já tinha chegado, o calorzinho? Rá, pegadinha do Malandro! Vai fazer 10 graus aqui até amanhã e eu vou ter que comprar pelo menos um casaco e uma bota (não que isso seja um problema). Mas olha o que é praticamente meu vizinho