Das opiniões

Padrão

Acompanho alguns blogs. Mais do que deveria. Menos do que gostaria. Também leio diariamente alguns portais de notícias e sempre me pego lendo os comentários – aquela mania de olhar para alguma coisa sabendo que vai se arrepender, mas a curiosidade é maior. Essa, aliás, deveria ser uma resolução para toda vida: não olhar comentários de portais. É assustador, mais ou menos o que o Sakamoto escreveu aqui. Eu também estou com medo.

Não é exatamente sobre o que quero tratar, mas de certa forma se relaciona com o assunto: por que todos tem de ter opinião sobre tudo? Eu vejo por exemplo que as discussões em redes sociais não visam “discutir civilizadamente um tópico em comum, apresentar seu argumento e tentar chegar a um consenso”. O raciocínio para em “apresentar seu argumento”. Na maioria das vezes não existe nenhum intuito em discutir no sentido de conversar, debater e conhecer a visão do outro. Discussões de facebook não levam à lugar nenhum porque todo mundo tem uma opinião formada sobre tudo (beijo Raul). E, se a gente parar pra pensar, eu posso ser muito lerda ou burra mas, isso é impossível! Não dá pra ter opinião sobre tudo, certamente tem algo sobre o qual você não sabe falar. Por exemplo: maneiras de melhorar a situação dos viciados que vivem na cracolândia. Nem vou linkar o tanto de página tratando disso: de um lado o prefeito querendo ressocializar, do outro a PM descendo bala de borracha. Não concordo com a violência policial, mas não sei se a ideia de arrumar trabalho e hotel pra galera não é apenas uma maneira de “limpar” a cidade. Cara, não sei! Não sei se isso resolve, a violência eu tenho certeza que não mas, e a internação compulsória? O viciado tem autonomia, enquanto viciado, de parar quando quiser? Não sei! E eu li muito sobre isso. Mas sabe de uma coisa: eu NÃO PRECISO saber. Eu posso acompanhar as discussões, concordar e discordar, mas eu não preciso me expressar sobre isso, ofender quem tem uma opinião diferente. Pelo contrário, posso aprender com eles e melhorar os meus argumentos conhecendo a visão deles. Isso é muito mais bonito do que ficar vomitando asneiras por ai.

Eu tive algumas experiências bacanas dando aula para um nono ano de escola particular (apenas 12 alunos) em que eu precisava dar uma aula por semana de sociologia e filosofia. Não sou formada nessas áreas, os livros didáticos dessas disciplinas são para o Ensino Médio e eu aproveitei para sentar e conversar com eles sobre assuntos que estavam em discussão na mídia, trabalhando produção de texto. Um dos primeiros temas foi exatamente a internação compulsória dos viciados da cracolândia e foram discussões muito legais, em que no final eles deveriam escrever uma carta para alguém, em nome deles mesmos ou um outro personagem. Foi muito bonito – uma aluna escreveu para o governador do estado enquanto mãe de um viciado, por exemplo. Em outras aulas, aproveitei a discussão sobre cotas e minorias da apostila de História para trabalhar esse assunto. Como alunos de escola particular, muitos deles eram contra, pois era uma “discriminação às avessas”, “anti-democrático” e tudo o que a gente lê/ouve por ai. Apresentando os argumentos da apostila e os meus (eu sou a favor – e a apostila também – , mas não me posicionei em nenhum momento) uma das alunas levantou a mão e disse “professora, antes eu era contra as cotas mas agora eu não sei mais minha opinião”. Meu Deus, era a melhor coisa que eu podia ouvir! Se ela dissesse que passava a ser a favor, eu ficaria incomodada não só por ela ter mudado de opinião em 15 minutos, mas porque eu provavelmente a teria influenciado de alguma maneira. Dizer que não sabia mais qual era a própria opinião significava a abertura do pensar diferente, as convicções abaladas e talvez a busca por outras ideias… Isso é sensacional e acho que foi uma das vezes em que fiquei feliz com o resultado de uma aula (quem é professor sabe que essas oportunidades não são muitas). 

A dica da tia Carol é pra vida toda: você não precisa ter opinião sobre tudo. E mesmo que você tenha, ela não precisa ser vomitada por ai. Tem gente que entra no site dos outros pra dizer que odiou o texto. GENTE! Não gostou, não leia. Tem um botãozinho ali no canto direito superior com um X (no Mac é do outro lado, mas deu pra entender). Fecha a página e vai ser feliz. Ofender as pessoas ou deixá-las constrangidas, magoadas, envergonhadas não faz parte da sua liberdade de expressão, só demonstra o quanto você é babaca.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s