Da superexposição dos dias de hoje

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Convivo com adolescentes. Sei e entendo a necessidade deles de postarem fotos diárias, com roupas de marca (pros meninos) ou sexy (pras meninas). Entender não é concordar, mas eu tenho 27 anos. Na idade deles, eu estava descobrindo o que era um computador. Não havia celular e só víamos a foto depois de revelar na Kodak. Não tinha como sair por ai tirando 200 fotos por dia, era caro revelar um filme. Brinco com meus alunos que eles já nasceram com um perfil no facebook.

se você não sabe o medo das fotos

Mas antes fossem apenas os adolescentes os fissurados pela exposição online, pela necessidade de mostrar para os amigos e familiares o que estão fazendo a todo o minuto. A epidemia do “me veja” está em todos os lugares, atinge todas as classes sociais e todas as idades. Por dia, 350 milhões de fotos são compartilhadas no facebook. São 4 mil fotos por segundo… Muitas delas são as selfies, palavra que entrou para o dicionário e pode ser entendida como aquela foto em frente ao espelho da balada, ou a que você mesmo tira virando o visor da câmera do celular para o próprio rosto. Se até o Obama faz, minha gente…

Qual o problema disso? Eu não vou entrar em questões como a segurança (porque se a ideia é se mostrar, é claro que as fotos vem com a localização, não é?), acho muito estranho mesmo é essa necessidade de se expor. Baladas, almoços, gatinhos, piscinas (um americano resolveu tirar sarro das famosas fotos de pernas na piscina, eu adorei!), tudo tem de ser mostrado para sua lista de 2000 amigos (dos quais você conhece 20% e conversa com 5%). Será que dá pra curtir sem um câmera fotográfica ou um celular com internet? Será que o tempo que você perde tentando achar o melhor ângulo, colocar o melhor filtro, não seria melhor aproveitado CURTINDO realmente aquele momento? Veja duas fotos tiradas no Vaticano, uma em 2005 da morte de João Paulo II e outra de 2013, da eleição do papa Chico (e leia o texto sobre a democratização do acesso – e divulgação! – de notícias). É isso. Lembra aquele último show que você foi, em que mais da metade da plateia assistiu pelos visores dos celulares? O Alex Castro já escreveu sobre isso também “o importante não é ir à França, absorver a cultura, conhecer os habitantes, mas provar aos amigos de casa que você esteve de fato na torre Eiffel”. E não basta tirar a foto e mostrar para os amigos íntimos: é preciso compartilhar no facebook, no instagram etc. Até prova do ENEM a galera não consegue fazer sem publicar foto no facebook…

O texto não é pra dizer que essas atitudes são certas ou erradas, sou professora de História e ainda monto álbuns de fotos (reais!) para guardar na estante porque gosto mais – e isso é só um acúmulo de papel e tralha (nesse ponto os álbuns no facebook são mais ecologicamente corretos do que os meus). A ideia é só pensar sobre essa necessidade de mostrar para as pessoas não só todos os seus passos, mas todos esses momentos felizes (que ninguém compartilha tristeza), filtrados e ensolarados: por que compartilhar tudo isso?

PS: Tem uma exposição que nunca termina bem pra uma das partes, a pornografia de revanche. Leia mais aqui

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