Arquivo mensal: julho 2013

Ah, a publicidade

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Esses publicitários começaram a usar óculos apenas aos 50? Porque só isso explica essa campanha com a Débora Bloch de título “sua visão como aos 20 anos”. Gente, minha visão aos 20 anos JÁ ERA terrível hahaha 😛

Aliás, já que é pra falar de campanha publicitária, gostaria só de citar que realmente curtia muito a ideia da Dove pela real beleza (e podem assistir essa campanha, que é maravilhosa!) até ela voltar a expor seus produtos de uma maneira meio bizarra e impositiva. Explico. A campanha da TV faz uma pergunta do tipo “o que você faz para mostrar suas axilas?”. Para eles, não basta apenas erguer os braços (dããã), mas existe todo um processo de depilação e clareamento necessários para que uma mulher possa mostrar suas axilas. Só assim elas podem usar um vestido sem manga e, uau, erguer os braços. Eu nem vou entrar na questão de que apenas as mulheres passam por esse tipo de constrangimento (em que até nossas axilas estão sendo vigiadas) porque isso já foi muito discutido, Meu ponto é que, para um grupo que começou tão bem, com a ideia da real beleza, colocando mulheres “normais” em suas propagandas, começar uma campanha com a frase “o que você faz para mostrar suas axilas” é, no mínimo, ridículo! Caraca, eu não preciso fazer nada para mostrar minhas axilas! Existem mulheres que optaram inclusive por nem depilar as suas! E ai? São menos mulheres, femininas, por isso? Quem estipulou que pra ser feminina ou mulher tem que ter as axilas depiladas, claras e com cheirinho de desodorante de lavanda? Bom, para a Dove, que começou com a ideia da Real Beleza, fazer uma campanha como essa soa quase como uma traição…

A última da Dove que eu vi foi sobre as pontas duplas (eu nem sei o que é isso e qual é o fucking problema delas, mas enfim) e o terror que ela causa nas mulheres. Juro, quase não durmo a noite com a angustia dessas mulheres. Cuidado, contém cenas fortes.

O post era só pra falar do problema da visão aos 20 anos, mas eu acabei me prolongado porque já queria tratar sobre esses dois comerciais em algum lugar. Não gosto deles. Impõem um padrão de beleza que a Dove já tentava se desvincular há algum tempo. É claro que ela não é a única a fazer isso. São dezenas de propagandas ridículas como essas por ai, dizendo o que nós mulheres devemos fazer para ficarmos mais bonitas. Se você tem mais de 20 anos, já reparou o tanto de coisa que foi inventada nesses últimos anos que na nossa adolescência sequer existia? Sabonete íntimo, absorventes de uso diário (para evitar seu cheiro NATURAL!), desodorantes que clareiam a pele, lasers para depilação, e nem vou comentar o grande aumento das cirurgias plásticas entre adolescentes  – o que expõem dois problemas: a busca por um padrão de beleza e uma insatisfação com o corpo já na adolescência e pais que atendem esse pedido descabido de cirurgia plástica numa idade em que o corpo não está sequer formado (e ai também entra o MÉDICO que aceita fazer esse tipo de intervenção). Esses produtos são vendidos como necessários, como fundamentais. É a publicidade INVENTANDO nossas necessidades! Há pouco tempo li um texto sobre isso, mas leio tanta coisa na internet que não lembro onde foi.

Só de lembrar que não posso mais chamar minha irmã de 5 anos de gordinha porque uma coleguinha da escola a chama de “gorda” e ela não gosta de que falem isso pra ela, meu estômago embrulha e sei que certamente tem alguma coisa errada nessa vida.

Esse texto eu li hoje e me inspirou a escreve sobre o assunto.

 

UPDATE: Lembrei qual texto me fez pensar tudo isso.

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Cem anos de solidão

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Um livro amarelado, edição de não sei quando, que traz consigo mais do que a linda história de Gabriel García Marquez. Comprado no Campo Pequeno, em Lisboa, em uma feira de rua por 5 euros. Lembro do velhinho que o vendia, falando do romance, “educadíssimo” – diria dona Ana, a portuguesa que alugava meu quarto. Eu trouxe 30 livros de Lisboa. Esse daqui é o do coração.

“Era tão premente a paixão restaurada que em mais de uma ocasião eles se olharam nos olhos quando se dispunham a comer e, sem dizerem nada, taparam os pratos e foram morrer de fome e de amor no quarto”.

O blefe da academia

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Minha nossa! Texto muito honesto do Alex Castro 

 

“Quando o aluno chega no mestrado, ele se sente afogado por tanta erudição. Por tanta gente culta vomitando teorias e petiscando autores. Por tantas referências que mal consegue acompanhar.

Sou o maior blefador do mundo, ele pensa. Que direito tenho de estar aqui?

Durante meses e anos, ele blefa e blefa e blefa, cada vez mais eficientemente. Quando tem que dar uma aula sobre Foucault, vira a noite lendo trocentos artigos sobre Foucault, para que ninguém perceba que não sabe nada, NADA sobre Foucault.

E sempre com medo que, algum dia, de repente, quando menos se espera, será desmascarado como o blefador que é. Que todos vão perceber que é o único que nunca leu Kant e Hegel de cabo a rabo. Que não é NADA!

Até que um dia vem a iluminação: ninguém leu Kant e Hegel de cabo a rabo. Ninguém sabe realmente do que está falando.

Entender de Foucault nada mais é do que virar várias noites lendo Foucault para que ninguém perceba que você não sabe nada de Foucault”.

 

Deixarei de ser um blefe, algum dia?

Ser mulher no século XIX

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“Aos 4 anos, Isabel foi reconhecida herdeira da Coroa. Cresceu como a princesa que teria de fortalecer o princípio monárquico apesar de ser mulher. Apesar de… Mas o que era ser mulher então?

Segundo médicos e cientistas, o gênero era governado pela sensibilidade. Escritores como Chateaubriand preferiam defini-lo como ‘o belo defeito da natureza’. Afinal, Adão não saiu de entranhas enfermas, mas das mãos de Deus. Já a inferioridade feminina era um dado natural, sem remédio. Era graças a ela que existiam coisas desprezíveis como a prostituição, o adultério e o infanticídio. Até o banho de sangue da Revolução Francesa lhe era debitado. Só por meio do casamento a mulher encontrava seu papel verdadeiro: o de ser obediente e dotada de sentimentos exemplares como a abnegação. A religião lhe era imprescindível. Sua fé ora funcionava como suporte contra sua fragilidade, ora como aliada de seu pudor e ignorância. Apenas a moral, a vida doméstica e a educação dos filhos  poderiam dar-lhe alguma forma de gratificação. Para a biologia,, que descobrira recentemente a ovulação, ela era o ‘vaso frágil’ no qual o homem depositava sua semente. Controlar seu funcionamento sexual era controlar sua vida. O marido seria o guardião da saúde feminina. Ele a criaria à sua imagem e semelhança”.

(PRIORE, Mary del. O Castelo de Papel. Rio de Janeiro: Rocco, 2013. págs 43-44 – Livro sobre a vida da princesa Isabel e do Conde d’Eu, seu marido)