Arquivo mensal: fevereiro 2013

só dor por isso

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Dá pra ficar triste por alguém que eu não conheço e está a milhares de quilômetros de distância? Acho que dá, porque eu estou com os olhos cheios de lágrimas aqui… Quando a crueldade humana tem religião e gênero.

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Aquela sensação

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Se você é homem, nunca vai saber qual é essa sensação. Se você é mulher, certamente já passou por ela. Não é o medo de ser assaltada. Não é o medo de ser sequestrada. Não é o medo de ser assassinada. A sensação que tento descrever vem do simples fato de ser mulher. Aquela sensação que chega a me privar de fazer alguma coisa, de ir a algum lugar, de usar certa roupa ou estar sozinha em público em determinado horário.

Duas coisas me fizeram lembrar dessa sensação: o texto incrível da Aline Valek, que expressa maravilhosamente bem esse sentimento, e minha ida à academia, a pé, às oito da noite. O texto da Aline é tão incrível, demonstra tão bem como algumas mulheres se sentem quando recebem assovios, “elogios”, buzinadas e até intimidações nas ruas, que me fez pensar em quantas vezes eu já passei por isso.

A primeira vez que me dei conta de que não podia andar sozinha no centro da cidade às quatro da tarde de um sábado foi um dia em que, de maneira audaciosa, resolvi ir até o ponto de ônibus sozinha, voltando da casa de uma amiga. Quando as mulheres relatam situações de abuso, normalmente descrevem as roupas que estavam usando (vide a ótima comunidade do facebook chamada Cantada de rua: conte o seu caso) e no meu caso, não foi diferente: há exatos dez anos eu lembro exatamente a roupa que estava usando. Penso que isso se dá porque a roupa é normalmente vista como algo que encoraja o agressor, o que me fez passar anos tentando entender o que EU havia feito que tinha provocado aquela atitude (“mas também, com aquela roupa, estava pedindo para ser estuprada!”). Eu usava uma calça jeans rasgada, uma blusinha preta, tênis preto e o cabelo amarrado num rabo-de-cavalo. Eu lembro QUAL era a calça. Eu lembro exatamente qual era a blusa, até da mochila que eu carregava. A rua, que tinha em sua maioria lojas e comércio em geral, estava bastante deserta (porque quase tudo fecha em Campinas após o almoço de sábado) quando um carro começou a me seguir. O motorista começou a me perguntar onde eu ia, se eu queria carona, e quanto eu cobrava. Eu não sabia o que fazer, porque minha mãe já havia me ensinado uma dezena de atitudes para fugir de situações de assalto, como deveria me vestir, por onde andar, mas não como reagir àquela abordagem… Fui pro canto da calçada mais longe do carro, dizia pra ele, bastante assustada, que eu não era prostituta, que eu não ia entrar no carro, que eu não queria carona. Até ele desistir e ir embora. Chegando em casa, contei para minha mãe, chorando, o que havia acontecido. Ela, que recebeu a mesma educação que meus avós, me disse que eu não deveria ter passado por aquela rua, sozinha, naquele horário (quatro da tarde).

Outras dezenas de situações parecidas com essa aconteceram comigo: abordagens escrotas em baladas, como quando eu dizia que não queria nada e o cara insistia que eu deveria sim ficar com ele. Ou quando eu dizia que tinha namorado e, ou não acreditavam ou diziam “como seu namorado DEIXA uma mulher tão linda sair sozinha (sim, era esse verbo mesmo que usavam… DEIXA)?”. Ou quando, indo para o clube, às cinco da tarde, dois garotos atrás de mim achavam engraçado gritar se podiam me comer. Assim mesmo: “ei moça, posso te comer?”. Eles acharam divertidíssimo porque me constrangiam E mostravam sua pseudo masculinidade. Naquela época eu não reagi, porque tive medo, porque realmente fiquei constrangida, porque não soube o que fazer. Hoje eu aprendi que não abaixar a cabeça intimida esses nojentos. O que eles querem não é paquera. Não é elogio. Não é me conhecer. Muitos deles se sentem no DIREITO de falar isso para mim na rua pelo simples fato de serem homens. Alguém, quando eram pequenos, disse a eles que as mulheres estavam à disposição para serem “elogiadas”, e não podiam reagir, porque mulher “de bem” (adooooro esse termo “de bem”) não reage, até gosta imagina, passar em frente a uma mesa de bar e ouvir um “noooossa que gostosa, chupava inteirinha”… Que mulher não vai gostar disso? Que mulher não vai querer ir pra cama com esse cara??

Daí eu chego finalmente na noite de ontem, em que eu ia sair sozinha, com roupa de academia (justa, de malha, que marca as curvas – que eu não tenho, mas enfim…). Eu assumo que cogitei NÃO fazer os exercícios que gosto por medo desse percurso de cinco minutos. Se às cinco da tarde dois garotos pediam para me comer, o que aconteceria a noite? Mas eu fui. E eu assumo também que tive medo, na ida e na volta. Que fiquei me perguntando porque ainda não havia arrumado um spray de pimenta. Só ouvi uma buzinada. Daí pros que falam que uma buzinada não é nada, pensem que eu estava sozinha numa rua escura e deserta. Uma buzinada me deixou sim com medo, com receio de quem poderia estar no carro. Também ouvi um “oooi” bem enfático de um cara na recepção. Até ai, o tratei como ser humano, que eu cumprimentaria por educação. Respondi e não abaixei a cabeça. Saibam também que eu sei distinguir um oi educado de um oi com segundas intenções. Todo mundo sabe. Mas eu respondi como  se não tivesse percebido. Nós mulheres fazemos isso o tempo todo.

Se você é homem e não é escroto, ou até se é escroto, vai sentir medo pelas mulheres que você gosta: filhas, irmãs, esposa. Sentir o que nós mulheres sentimos todos os dias, dentro dos transportes públicos, na rua, no trabalho, isso você nunca vai poder saber. Talvez um homem homossexual chegue perto, porque também corre riscos simplesmente por ser quem ele é. Vou repetir aqui uma das máximas do feminismo: “Ensine os homens a não estuprar, e não as mulheres a não serem estupradas”. Hoje tive que pedir que um aluno de doze anos parasse de cutucar e fazer cócegas em uma colega. Ela implorava para que ele não fizesse, e ele achava divertido ela pedir para ele parar. Até quando as meninas/mulheres estarão a mercê de situações como essa? Já imploramos muito para que ELES parassem. Agora que o feminismo sai do armário nas redes sociais e nas ruas, incomoda. E vai incomodar mesmo. 

Ah, a cozinha…

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Daí que o bolo que eu mais gosto do mundo é fubá com queijo, e embora eu use a mesma receita da minha avó, raras vezes eu acerto: muito seco, muito mole (o último parecia pamonha!)… E hoje fui visitá-la, e pedi pra ela fazer o bolo. Quando eu cheguei a massa já estava no liquidificador, em 2 minutos ela untou a assadeira e colocou no forno. E eu que sempre ouvi que não se bate a massa com o fermento no liquidificador, aprendi que ela fez isso a vida toda. Enquanto ela me cumprimentava, terminou o bolo que eu me preparo psicologicamente pra começar a fazer e que poucas vezes deu certo. Não preciso dizer que, mais uma vez, o bendito bolo ficou perfeito.

Das religiões 2

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Depois disso me afastei totalmente das religiões. O curso de História ajudou nesse processo, lugar em que a gente racionaliza tudo o tempo todo. Me espantava com alguns (poucos) colegas que mantiveram sua religião durante toda a graduação. Eu, se já não a tinha, passei a me afastar ainda mais dela. Experiências terríveis com alguns evangélicos também ajudaram nesse processo. Como quando uma pastora veio até minha casa, viu por aqui 250 demônios e exorcizou a minha mãe no meio da sala.

Eu nunca deixei de acreditar em Deus, eu odiava mesmo as religiões. Elas que estão prontas para julgar meu comportamento, minhas roupas, minhas crenças, meus hábitos, minha sexualidade. Essas pessoas que falam em nome de Deus, que ao invés de absorverem o que é bom de um livro escrito há 2000 anos, pegam partes dele para seguir ao pé da letra. Valores de uma sociedade antiga, trazidos para o século XXI. Vender filhos como escravos não pode “imagina, é um questão de contexto Carol, valores daquela época”, mas ser contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo pode: “pouca vergonha! onde o mundo vai parar?!”. Vejam mais exemplos de vamos-pegar-da-Bíblia-só-o-que-queremos aqui.

Eu simpatizei bastante com o kardecismo. Meu pai segue essa religião e, de todas, era a que me parecia mais “justa”, que fazia mais sentido para mim. Essa história de poder cometer os maiores crimes e pecados do planeta e depois só se arrepender para ir para o céu nunca me convenceu. Fala sério, né? Faz muito mais sentido a gente ir aprendendo aos poucos, ir resgatando as merdas que a gente faz até evoluir. Mas também, apesar de ler alguns livros e ter me emocionado com o filme do Chico Xavier, nunca me interessei em seguir de fato e estudar para me tornar espírita. Daí eu descobri a Umbanda.