Arquivo mensal: janeiro 2013

O que ando lendo

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Nesse período terrível de espera da defesa não consegui abrir o texto da dissertação. Sequer olhar pra ele. Dai que ando lendo algumas coisas que estavam paradas nas prateleiras de livros há algum tempo. O Versículos Satânicos (Versos Satânicos no Brasil – minha versão é a portuguesa), livro que levou seu autor Salman Rushdie a passar a vida escondido, pois foi condenado a morte por causa dessa obra por um aiatolá (falei dele aqui), não é uma leitura fácil. Suas 600 páginas remetem muito a mitologia da criação da religião islâmica, sobre a qual eu não sei muito e me deixou meio perdida, igual quando li ‘Caim’, do Saramago – era tanta referência bíblica que eu não dava conta de assimilar todas as ironias do autor, declaradamente muito ateu. Eu ainda não acabei ‘Versículos’, estou indo aos poucos, lendo outros livros quando me canso dele… como ganhei a autobiografia, queria ler primeiro o ‘Versículos’ pra depois ir pra ela, ou seja, vai demorar um pouco ainda. Dentre frases e citações lindas, achei uma particularmente espetacular:

“Pergunta: qual é o contrário da fé?

Não é a descrença. Demasiado definitiva, segura, fechada. Ela própria uma espécie de fé.

A dúvida.

A condição humana, pois, mas então e a angélica? A meio caminho entre Aládeus e o homosap, terão eles alguma vez duvidado? Duvidaram: desafiando a vontade de Deus, esconderam-se a murmurar um pouco abaixo do Trono, atrevendo-se a perguntar coisas proibidas: antiperguntas. Estará certo que. Não poderia discutir-se o caso. Liberdade, a mais antiga antiguidade do mundo. Ele sossegou-os, naturalmente, servindo-se das suas artimanhas de governante a la deus. Lisonjeou-os: vós sereis instrumentos da minha vontade na terra, da salvaçãodanação do homem, e todo o etcetera do costume. E pronto, acabaram-se os protestos, tomem lá as auréolas, voltem ao trabalho. Os anjos são fáceis de pacificar; basta transformá-los em instrumentos e eles tocam logo a música de harpa que se lhes pedir. O seres humanos são mais duros de roer, conseguem duvidar de tudo, até da evidência dos seus próprios olhos. De trás dos seus próprios olhos. Daquilo que, enquanto eles se afundam no sono, como pálpebras de chumbo, sucede atrás dos olhos fechados… os anjos, esses não tem grande força de vontade. Ter vontade é discordar; não se submeter; divergir.”

(favor perdoar a falta de crases, o notebook nunca mais as recuperou, mas o novo está quase pronto)

Das coisas que a gente escuta

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Ouvi hoje, no colégio onde dou aula, que “jamais contrataria um professor ateu, imagina?” vindo, é claro, de quem tem o poder de contratar.

Onde já se viu né, já que os Parâmetros Curriculares Nacionais afirmam que no sétimo ano, por exemplo, serão trabalhadas noções de “diversidade cultural e encontro de culturas”, vamos excluir pessoas das quais não sabemos nada a respeito apenas por sua religião (ou a falta de uma).

Numa escola não muito longe dali, apenas professores evangélicos são contratados. Sim, a pergunta é feita na entrevista, e um “muito obrigado, mas não é nosso perfil” é dito quando o candidato responde qualquer outra opção que não “batista”.

E eu fiquei horas me perguntando como diabos (turunts) alguém consegue ensinar tolerância e diversidade com uma cabeça dessas. Mas eu penso demais.

O dia mais-que-bom

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Hoje foi um dia assim, normal. Acordei, passei muita roupa e fui almoçar no shopping, uma barca linda de comida japonesa (tem como barca não ser de comida japonesa?) que ganhei num concurso cultural da Gendai. Depois ainda comprei meu novo notebook porque esse não é meu, é da fundação que financia minha pesquisa (paguei a vista porque a partir do mês que vem sou uma professora que ganha pouco e não quis fazer dívidas). No final ainda passei em frente ao restaurante japonês, para ir embora, e a mocinha que tinha me atendido chamou pelo meu nome, dizendo que havia esquecido de me dar um presente, uma porcelana da designer Rachel Hoshino. Tem como não amar o dia de hoje?

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#soqueriaescrever

Sobre a prostituição

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Essa entrevista do Jean Wyllys é muito amor. Concordo com tudo. Sou totalmente a favor da liberdade do corpo da mulher. Se o feminismo luta pelo direito ao aborto, DEVE lutar pelo direito de a mulher ser prostituta SE ELA QUISER. “Meu corpo, minhas regras”, não era esse o grito da Marcha das Vadias? Assim seja. Não dá pra ser a favor de um e contra o outro. Pelo menos na minha cabeça não dá.

No livro “Pagando por Sexo”, de Chester Brown (que eu comprei porque sou altamente influenciável quando o assunto é livro e me encantei com a coluna – sempre boa – da Eliane Brum sobre o lançamento da obra no Brasil), ele faz uma ressalva bastante importante sobre regulamentar X descriminalizar. No Brasil, o problema maior, como lembra o deputado, é que as casas de prostituição não são legais (e né, o Itatinga, maior bairro de prostituição do Brasil, é aqui em Campinas, mas enfim…), mas a prostituição em si não é crime. É claro que as prostitutas sem muitos recursos devem preferir a proteção de uma casa, mas a submissão a um cafetão violento certamente é terrível. O que Brown, enquanto conhecedor de prostitutas sugere, é que regulamentar não é a saída, pois, numa sociedade machista como a nossa (e não só a nossa, machismo é uma doença presente em todos os cantos do mundo) nem todas as profissionais iriam se “licenciar”, e continuariam a recorrer a atividades ilegais. “Com a descriminalização, todas as prostitutas poderiam contratar seguranças e recorrer a polícia. TODAS estariam mais seguras”. É, a lógica do autor é boa, mas quem aqui já viu prostituta ir a polícia por conta de violência ou, sei lá, um cliente que não pagou pelos serviços? Quando vão, viram chacota em jornaleco, sendo desrespeitadas pelos policiais.

Não sei se regularizar (carteira assinada?) é o caminho. O problema é muito mais profundo e precisa de muita discussão. Acho que o deputado está no caminho certo porque dialoga exatamente com as interessadas, sem fazer “lei de gabinete” (na História há a expressão “historiador de gabinete”: o cara que não sai da sua mesinha por nada do mundo e realiza suas pesquisas de lá de dentro, uso nesse sentido). O caminho é longo e, como ele mesmo disse, a bancada religiosa estará lá, firme e forte contra mais um projeto importante para a sociedade.

Das religiões 1

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Há pouco tempo me considerava uma pessoa sem religião. Mais ainda: avessa a todas elas. Baseada nos religiosos que me cercavam, via que a maioria deles estava pronta para julgar quando alguém resolvia ser diferente dos “planos de Deus”. Incrível que toda essa gente sabe direitinho quais são os planos de Deus. 250 milhões de religiões pelo mundo, uma porrada delas baseada no mesmíssimo livro, e todo mundo sabe o que Jesus gosta ou não gosta. Aquele cara, que pelo pouco que sei era o mais bondoso, que prezava a humildade, que acolhia prostitutas e ladrões e não gostava nem um pouco da ostentação e da riqueza, ah, como falam em nome dele! Nem comento os programas de TV que atingiram o ápice de venderem o “perfume de Deus”, não sem antes anunciarem a “fronha que realiza seus desejos”, ou pedirem para que as pessoas dessem “um nó na camisa” (esse vídeo é um trote, mas mostra o tal nó. Troque camisa preta por arruda ou manjericão. Pois é…). Macumba em nome de Deus (e a preços incríveis) pode, viu? O resto é coisa do demônio. Sem contar no machismo impregnado em todas elas… A intolerância das igrejas – todas cristãs, não to falando do Bin Laden, não – me fazia ficar bem longe delas. Depois de mais velha, sempre entendi as igrejas como extremamente autoritárias, seus rituais, presentes em todas as esferas da vida pública, me davam (e ainda dão) raiva.

Mas nem sempre foi assim. Fui criada por uma vó muito católica. O catolicismo, para mim, não foi uma opção, mas também não foi uma imposição. “Qual sua religião?” “Católica”. Simples. O batismo na religião católica, ao contrário das evangélicas, é imposto as crianças. “se não batizar a criança fica desprotegida e muito arteira”… To imaginando Deus lá em cima escolhendo a criança que ele vai proteger “não, aquela ali pode quebrar o braço porque não foi batizada” hahaha divago. Foi minha avó quem me ensinou o Pai Nosso, quem tentou me ensinar o Salve Rainha e foi com ela que eu rezava o terço todo, e fazia inclusive promessas baseadas nessas orações – que eu só cumpria se ela tivesse feito… acho que nunca cumpri nenhuma promessa. A primeira comunhão sim, foi de fato imposta “se você não fizer não vai poder casar”. A opção de casamento civil, ou em outra religião, como se pode ver, não era de fato uma opção. A não-comunhão poria em risco o sonho muito bem plantado na cabeça de toda menina, que é o casamento. E lá ia eu todos os sábados de manhã para a igreja. Não lembro de absolutamente nada daquelas aulas. Nem se eu gostava. Só lembro do nervosismo da primeira confissão. Lembro que eu falei que brigava muito com a minha irmã. E que o padre foi muito bondoso e disse que eu sabia que não podia fazer isso. Lembro que odiei o que uma tia, com muito carinho, tinha feito no meu cabelo para a cerimônia da primeira comunhão. Lembro ainda que eu pensava “que não ia fazer aquela tal de crisma nem ferrando”.